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Fernando Reski completa 80 anos mantendo viva a paixão pelos palcos

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Fernando Reski não nasceu para ficar parado. “Não tenho com quem falar em casa”. Aos 80 anos, completados em 22 de maio, o ator segue em ritmo intenso, dividindo o tempo entre peças, gravações, eventos culturais e caminhadas por Copacabana, bairro onde vive há quatro décadas e é constantemente reconhecido nas ruas. Em entrevista ao Jornal Posto Seis, ele relembrou momentos marcantes da carreira com bom humor, orgulho da trajetória e a mesma disposição de quem ainda quer muito palco pela frente.


“Completar 80 anos é prazeroso, porque continuo trabalhando em cinco ou seis segmentos”, afirma. Com 60 anos de carreira, Reski olha para a própria história com entusiasmo - e também se inspira em colegas que seguem ativos. “Veja a Fernanda Montenegro… está com 96 anos e fazendo teatro”. O peso da idade, entretanto, já é sentido há algum tempo. “No começo, viajei para fazer teste para ‘Hair’ (montagem de 1969/1970) de ônibus. Dormi em um colchonete no chão da casa do Ney Latorraca. Agora, só dá se for de avião e dormir em hotel. A casca está melhor que por dentro. Já fiz três longas no mesmo dia, sendo que um era gravado em São Paulo. Hoje, muitas atividades em um dia só me cansam”.


Apesar da fala, o artista demonstra energia ao conversar e falar sobre seus trabalhos atuais. “Estou fazendo o programa ‘Gente Carioca’ com a Cida Moraes há 15 anos, cobrindo a noite. Faço também o podcast “Alô, Rio”, gravado na Cinelândia. Às quintas, participo do musical ‘O Brilho das Estrelas’, produzido por Paula Goodarth, no Teatro Miguel Falabella. É um espetáculo beneficente em prol do Retiro dos Artistas. Sou quem mais entra em cena”. Reski também tem sido muito requisitado para comerciais de lojas de Copacabana. “Começou com a Flora Santa Clara e veio um atrás do outro”. Além de tudo, ainda é diretor do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro (Sated-RJ) e eventualmente participa dos clipes das novas marchinhas de João Roberto Kelly, enquanto busca papeis no cinema. “Sou o ator brasileiro que mais fez filmes nacionais. Participei de 53 longas. Quero filmar outros, mas não sou mais chamado”.


Distante dos olhares do público, o ator afirma ser uma pessoa solitária. “Detesto ficar em casa porque não tenho com quem conversar. Não gosto mais de ler, mas recentemente, li a biografia da Hebe, escrita pelo Artur Xexéo”. O artista, que é morador da Rua Cinco de Julho há 40 anos, gosta de andar na rua e conversar com o público. “As pessoas são muito carinhosas comigo . Várias me param dizendo que fui professor de teatro delas”.


Em meio às celebrações da nova idade, Reski faz planos de novos trabalhos. Um deles é um monólogo, já escrito por Zé Maria Rodrigues, que contaria sua vida e sua trajetória profissional. “Toda hora me ligam pedindo para falar algo. Cheguei a me questionar ‘Será que minha história vai interessar a alguém?’. Há muitos monólogos em cartaz, mas poucos assim. Há o do Othon Bastos, que está com 92 anos falando sobre ele. Está maravilhoso! Sobre mim, notei que tenho muitas histórias para contar. Por exemplo, protagonizei o primeiro nu do teatro, com a Sônia Braga, em ‘Hair’. Fizemos essa cena com a polícia na porta”, exemplifica.


Daquele período de repressão, guarda diversas lembranças. “A peça mais complicada foi ‘Roda Viva’ (1968), do Chico Buarque. Fiz com Zezé Mota, Pedro Paulo Rangel, Antônio Pedro, Marieta Severo... Era uma crítica ao americanismo. Uma vez, no Teatro Princesa Isabel, uma pessoa que estava sentada na primeira fila usou spray de matar barata dentro da minha boca enquanto eu falava”. A temporada paulistana, entretanto, aumentou o clima tenso, segundo lembra: “No começo da montagem, não se falava tanto em censura, mas quando estávamos em cartaz no Teatro Ruth Escobar, um grupo de caça aos comunistas veio nos bater, com pedaços de pau na mão. Eu e a Marília Pêra, que havia substituído a Marieta Severo, tivemos que fugir pelo basculante”. O pai dele, que era um empresário na época, o aconselhou a desistir da carreira nesse momento, mas o ator insistiu.


Ainda sobre ‘Hair’, Reski lembra que ingressou no elenco por uma particularidade: ele chegou ao teste convidado por um amigo e ganhou o papel no musical exatamente por não saber nem cantar nem dançar. “Não conhecia aquele espetáculo. Estreou nos EUA e eu não sabia nem o que era. No teste, me mandaram cantar e escolhi ‘Vem Quente Que Estou Fervendo’. Me pediram, então, para dançar. Falei que não sabia, mas podia aprender. Eu não tinha feito quase nenhum musical. Deu certo porque precisavam de alguém com cara de babaca”, diverte-se. Na montagem recente, encenado no Teatro Riachuelo no segundo semestre de 2025, o artista foi lembrado. “Eu e outros atores que ainda estão vivos fomos chamados para uma homenagem”.


Foi no palco dessa produção que viveu um momento curioso de sua vida. Reski, que é conectado às pautas LGBTQIA+, viveu um casamento inusitado. “Éramos jovens, eu vinha de família judaica e havia essa coisa de ter que se casar com uma mulher. O cortejo foi acompanhado por Antônio Fagundes, Aracy Balabanian e Sônia Braga, no Teatro São Pedro (em São Paulo). O Clodovil me vestiu e ela (o nome da noiva não foi mencionado) foi arrumada pelo Dener. A Hebe e a Cidinha Campos até fizeram reportagem”. O enlace durou 1 ano e meio.


Questionado sobre o auge de sua trajetória, não hesita ao responder que foi a montagem de “O Violinista no Telhado”, em 1971. “Até ganhei prêmio de Melhor Ator Coadjuvante na temporada do Teatro João Caetano”. Sobre o pior momento, a resposta é mais demorada. “Foi a primeira versão de ‘Roque Santeiro’. Eu estava nos 26 capítulos gravados”. A novela começou a ser produzida em 1975, com Beth Faria como protagonista, e foi censurada pelo Governo Federal após um telefonema do autor Dias Gomes ser interceptado; nele, o escritor afirmava que a produção era uma adaptação da peça já censurada, “O Berço do Heroi”, e que seria levada à TV de forma a enganar os militares, resultando, pela primeira vez, na proibição de uma novela inteira. Dez anos depois, já no período democrático, outra versão foi produzida, com Regina Duarte no papel principal.


Apesar do desânimo, foi esse trabalho que lhe abriu portas no humor. “A Globo tinha preconceito com quem fazia shows, mas o diretor Walter Avancini cochichou para eu falar que não estava em cartaz com nenhum. A partir de então, trabalhei com grandes nomes da comédia, como Jô Soares, Chico Anysio, Os Trapalhões, Agildo Ribeiro, Berta Loram...”. Ainda na emissora, lembra, com carinho, de ser chamado para diversos episódios do “Sítio do Picapau Amarelo” (1977 – 1986). “Adoro crianças, mas improviso muito e com elas, é necessário ser cuidadoso, o que não sou, por isso fiz poucos trabalhos infantis, apesar de ter começado minha carreira com esse público. Sou cria da Maria Clara Machado. Estreei em ‘Pluft, O Fantasminha’, no Copacabana Palace”.


Em meio às lembranças, Reski mostra-se feliz ao citar mais um trabalho, que ainda estreará. “Participarei de um espetáculo no Teatro TotalEnergies. Será depois da Copa do Mundo. Fui chamado pelo autor do texto, Sérgio Farias, como homenagem pelos meus 80 anos. Ele também fez uma pelos meus 60 anos de carreira. Vou interpretar um padre. O elenco todo é jovem e me chama de ‘senhor’, mas sou da macumba e do samba”, finaliza, pronto para entrar em cena mais uma vez.


Agradecimentos: Flora Santa Clara, Ótica Gipsy, programas “Gente Carioca” e “Alô Rio”, Sated-RJ, restaurante Príncipe de Mônaco, Café e Tabacaria Lolló e Bottles’s Club.

 
 
 

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