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Copacabana completa 134 anos reafirmando sua vocação para o esporte

  • há 18 horas
  • 5 min de leitura

Ao longo de seus 134 anos, comemorados em julho, Copacabana ganhou projeção mundial por inúmeras facetas. É um bairro turístico, cosmopolita, praiano... Em meio a tantos rótulos, um parece ficar em segundo plano: o de região esportiva. Antes mesmo do sol nascer, a Praia de Copacabana já está em movimento. Corredores ocupam o calçadão, grupos treinam funcional na areia, nadadores entram no mar, praticantes de futevôlei disputam partidas e alunos de diferentes idades participam de aulas ao ar livre. Ao longo dos seus quatro quilômetros de extensão, a orla abriga diariamente milhares de pessoas e se consolidou como um dos maiores espaços esportivos a céu aberto do país.


Basta caminhar um pouco para conferir a variedade de modalidades praticadas de manhã cedo e também no fim da tarde – horários sem sol forte. Além das citadas acima, beach tennis, altinha, natação em águas abertas, corrida, stand up paddle, canoa havaiana, futevôlei, futebol de areia, vôlei de praia, musculação, yoga, patins e slackline são algumas das inúmeras das que ocupam a orla, democraticamente dividida: há espaço para todas. Em Copacabana, praticar esporte vai além da atividade física. Para muitos frequentadores, a rotina inclui encontrar os mesmos grupos diariamente, tomar água de coco após o treino, acompanhar o nascer ou o pôr do sol e construir amizades que atravessam décadas.


É o caso da moradora Tânia Aguiar, que se preparava para jogar vôlei. “Pratico há anos, fiz muitos amigos”. Seu vizinho, Arthur Lemos, exalta outra qualidade: “Sem querer desmerecer as academias, inclusive eu treino em uma, mas se exercitar na praia é muito melhor. A paisagem é mais bonita, as pessoas socializam mais porque não costumam estar aqui para algo individual, e de manhã, ainda dá para dar um mergulho”. Apesar dos elogios, a dupla apontou um mesmo ponto fraco: “Dá preguiça de vir quando está mais frio”, citou Tânia, complementada por Lemos: “É algo mais incerto porque com chuva, ninguém vem, nem eu”.


Em meio à popularidade dos esportes de praia, há quem chame a atenção para o Código de Posturas do município, que delimita horários para a prática de esportes com bolas, raquetes, petecas, discos ou similares na beira da água entre 8h e 17h – neste horário, a prática só é permitida na areia, perto do calçadão. A equipe do Jornal Posto Seis conversou com os entrevistados em um horário depois das 17h, e deparou-se com alguns grupos praticando altinha perto do calçadão. “É bom e é ruim. A gente respeita, mas no verão, é horrível jogar aqui em cima por causa do calor. Só que, em dias de praia cheia, há pessoas demais jogando lá embaixo (perto do mar), e toda hora alguém que está na praia toma bolada”, reconhece André Dias.


A falta de fiscalização é motivo de reclamações recorrentes em grupos de moradores, onde eventualmente banhistas queixam-se das dificuldades em acessar o mar devido ao grande número de praticantes principalmente de altinha e frescobol – no caso deste esporte, separar a atividade do local torna-se especialmente polêmico, uma vez que a atividade foi criada, em 1945, em Copacabana, para ser jogada na beira do mar. Na época, até os salva-vidas ajudavam na venda das raquetes, confeccionadas em madeira pelo criador da prática, o empresário Liam Pontes de Carvalho. Os atritos entre jogadores e demais frequentadores da prática são quase tão antigos quando a história: nos anos de 1950 e 1951, a atividade chegou a ser proibida, sendo permitida somente na Praia do Diabo. Atualmente, a popularidade é tanta que o frescobol tornou-se Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro e o dia 10 de julho é considerado o Dia Estadual do Frescobol.


Se o frescobol nasceu em Copacabana, outras modalidades encontraram no bairro terreno fértil para se desenvolver, como beach soccer. Menções no Google apontam que teria nascido na década de 1930, mas a mídia da época mostra que um grupo da Rua Gustavo Sampaio, no Leme, teria organizado a prática desde 1927 e que antes mesmo de o jogo se popularizar em Copacabana, ganhou terreno em Niterói, na Praia de Icaraí. Se, em relação a este, há dúvidas sobre a verdadeira origem, quanto ao vôlei de praia não há o que se discutir. A novidade foi importada dos Estados Unidos também na década de 1930, mas dentre as mulheres jogadoras, a moradora do bairro Leah Mendes de Moraes, a tia Leah, foi a precursora. Ela começou a jogar com os homens numa época em que nenhuma mulher se aventurava. Cerca de 30 ou 40 anos depois, a matriarca do esporte, morta em 2012, passou a ser referência, procurada até por atletas da Seleção Brasileira. Coincidentemente ou não, Copacabana segue sendo palco frequente de torneios da modalidade. Entre 22 e 26 de julho, a praia recebe a 5ª Etapa do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia Adulto, na altura da Rua Rodolfo Dantas.


O pioneirismo se deu também nas provas de natação no mar. Em 1922, antes mesmo da construção do Copacabana Palace, ao menos duas maratonas aquáticas foram realizadas, sendo que a mais divulgada delas, encabeçada por Luiz Carpenter, Octavio Santos e Francisco Cardoso Junior, precisou ser adiada para a semana seguinte devido às fortes ondas. Os banhos de mar recreativos ainda estavam se popularizando, e naquele momento, ninguém imaginava que aquelas competições seriam o embrião do que, no futuro, viriam a ser os grandes torneio aquáticos, Travessia dos Fortes, tradição entre 2001 e 2012. Para os saudosos, uma novidade: nesse ano, a Travessia Entre Fortes promete reviver um percurso semelhante em 30 de agosto. Outro evento que já se tornou parte do calendário esportivo da praia é o Rei e Rainha do Mar, novamente previsto para dezembro.


Talvez a maior movimentação esportiva da Praia de Copacabana tenha ocorrido durante a Rio 2016 – quando as competições de vôlei de praia, maratona aquática e triatlo tiveram o local como cenário. Apenas a estrutura para as provas de vôlei já chamava a atenção pelas dimensões: chamada de Arena Copacabana, tinha capacidade para 12 mil espectadores – mais que o dobro da montada para os Jogos Pan-Americanos, em 2007, quando as mesmas modalidades foram disputadas no local. Ainda que esses eventos sejam os mais lembrados pelo público, ao longo das décadas, diversas outras arenas foram montadas para esportes variados. No passado, houve até projetos de que elas ficassem fixas na areia. Em 1989, dois anos após a primeira, a ideia era um centro esportivo entre as ruas Ronald de Carvalho e Prado Junior. Dez anos depois, atletas defenderam a permanência da estrutura já montada na altura da Avenida Prado Junior.


Em poucos lugares do mundo tantas modalidades convivem simultaneamente em um espaço público. Mais do que cartão-postal, a Praia de Copacabana tornou-se um modo de vida. Ao completar 134 anos, o bairro continua mudando de forma, recebendo novas modalidades e atraindo diferentes gerações de praticantes. O que permanece é a cena que se repete todos os dias: alguém correndo no calçadão, outro entrando no mar e dezenas de grupos ocupando a areia antes mesmo de a cidade despertar. Copacabana transformou o esporte em parte de sua própria identidade.

 
 
 

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