Coluna "Os Cinemas de Copacabana": Cine Ricamar


Em meio a tantos cinemas inaugurados em Copacabana, o Ricamar é um dos mais lembrados pelos moradores. Sua abertura foi marcada por uma novidade: foi o primeiro a ser autorizado a cobrar pelos ingressos valores não-fixados pela Comissão Federal de Abastecimento e Preços (Cofap), órgão criado em 1956 para controlar o aumento dos preços dos artigos e serviços. O benefício, entretanto, logo foi revisado.


Batizado pelo proprietário original, Sylvio Guedes de Carvalho, em homenagem aos seus netos, Ricardo e Maria Cristina Lowndes, no ano seguinte passou a fazer parte do circuito de estreias da Metro Goldwyn Mayer. A parceria foi encerrada após cinco anos e Guedes firmou novo convênio, agora com o grupo Condor. Nessa nova fase, mostrou-se versátil. Exibiu desde a Mostra de Curta Metragens Poloneses a exposições diversas indígenas, além de promover lançamentos de livros.


O viés cultural, além da parte cinematográfica, era tão forte que, em 1984, foi discutida a transferência, ainda que temporária, da tela “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, para o hall na estreia do filme “O Rei da Vela”, filmagem da peça homônima de Oswald de Andrade e lançado para marcar os 30 anos da morte do poeta. O evento foi marcado por um grande susto: um rojão entrou pela janela aberta de um táxi estacionado na porta do Ricamar, explodindo o veículo. Havia receio de que a ação fosse um atentado, como o do Riocentro três anos antes. Imediatamente após o ocorrido, aproximadamente 100 convidados foram retidos no interior do cinema pela polícia enquanto a questão não era esclarecida, o que gerou protestos nas janelas do foyer do local – as precauções foram apontadas como “paranoicas”. Após a liberação, às 2h45m da madrugada, o público transformou o ato em uma manifestação política, cantando “Um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos eleger o presidente do Brasil”, refrão entoado em muitos comícios do movimento “Diretas, Já!”. O episódio não deixou feridos.


Antes disso, o Ricamar fechou para obras no fim da década de 1970. O local foi equipado com o que havia de mais moderno em som e projeção e logo passou a receber média de cinco mil pessoas por fim de semana, ainda que o número de poltronas tenha sido reduzido. Foi ainda nessa época que a Cooperativa Brasileira de Cinema, então proprietária da sala, passou a receber propostas para acabar com o espaço, o que foi rejeitado por amor à sétima arte. Os sentimentos não foram suficientes para manter o local em funcionamento. As mudanças nos hábitos dos frequentadores, que passaram a assistir filmes em suas casas, esvaziaram o Ricamar, como ocorreu com tantas outras salas.


Houve propostas de dividi-lo em dois menores, mas o Plano Collor inviabilizou a mudança, o que levou ao fechamento. Em seu lugar, dez anos depois, foi aberto o Espaço Cultural Baden Powell, renomeado Sesc Arte |Rio quando passou a ser administrado pelo SESC, nos primeiros anos. A área de 1,5 mil m² foi preservada e adaptada para receber eventos de teatro, música, dança, vídeo e artes plásticas. A sala do cinema foi transformada em um teatro para 542 frequentadores.