Beco das Garrafas: o início da bossa nova

Publicado na edição 341 (1ª quinzena de julho de 2012)

Entre o final dos anos 50 e meados dos anos 60 do século passado, o Beco das Garrafas, localizado entre os números 21 e 37 da Rua Duvivier, em Copacabana, foi o palco do surgimento de um dos movimentos musicais brasileiros mais conhecidos internacionalmente: a Bossa Nova. No local, existiam as famosas boates Little Club, Bacará e Bottle´s, onde se apresentavam músicos, posteriormente famosos, como Dolores Duran, Elis Regina, Nara Leão e Wilson Simonal.


O Beco das Garrafas foi assim apelidado pelo jornalista e cronista Sérgio Porto (primeiramente como Beco das Garrafadas) devido a uma situação inusitada: na época, o local atraía movimentação de pessoas, automóveis e táxis durante a noite toda e, muitas vezes, isso provocava barulho de conversas na rua. O bate-papo e as gargalhadas propagavam-se durante o intervalo entre os shows ou na saída deles. A algazarra da madrugada incomodava tanto os moradores dos prédios vizinhos que estes protestavam jogando garrafas do alto dos edifícios.


No final da década de 1950, os proprietários dos night-clubs do “beco” (também conhecidos popularmente de “fumaceiros”, por serem locais pequenos e fechados, onde a fumaça dos cigarros propagava-se por todo o ambiente) passaram a apresentar shows de músicos ligados à Bossa Nova, subgênero musical derivado do samba e com forte influência do jazz norte-americano. O local também ficou conhecido pelos “pocket-shows”, pequenas produções feitas por Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli.


Apesar da ascensão da Bossa Nova e de seus músicos, que acabaram virando artigo de exportação (Wilson Simonal, por exemplo, fez aproximadamente 300 shows no exterior), o Beco das Garrafas perdeu, em meados da década de 1960, a evidência e o brilho conquistados no início do movimento. A maioria dos artistas que começaram suas carreiras ali passaram a gravar discos em grandes gravadoras e tornaram-se famosos. Devido ao pequeno tamanho das boates, não era mais possível ter rendimentos suficientes para pagar os novos cachês dos agora requisitados astros emergentes. Entre os talentos que passaram pelos seus palcos estão: Elis Regina, Nara Leão, Sylvinha Telles, Claudette Soares, Jorge Bem, Dóris Monteiro, Wilson Simonal, Sérgio Mendes, Baden Powell, Wilson das Neves, entre outros.


Atualmente, o Beco das Garrafas, que já virou até letra de música homônima da cantora Zélia Duncan, foi objeto de um processo de revitalização em 2008, por iniciativa do próprio produtor Miele, encontra-se abandonado, sendo utilizado como lugar de abrigo para moradores de rua, apesar de existirem uma livraria de música e uma boate no local.