Leme comemora 120 anos encantando os cariocas

Publicado na edição 384 (2ª quinzena de abril de 2014)

Do Leme ao Pontal, não há nada igual”, já dizia o trecho da canção de Tim Maia. O Leme, bairro conhecido pela habitual tranquilidade e que já serviu de inspiração para muitos compositores, completa, no próximo dia 26 de abril, 120 anos de história. Para homenagear a região, adorado por muitos cariocas, o Jornal Posto Seis conta um pouco de sua trajetória.


Considerado um lugar tranquilo e charmoso, a área, desde os seus primórdios, é considerada um ambiente familiar. Na época do Império, era reduto de famílias que o procuravam para fazer piqueniques e passeios. Oficializado como bairro em 1894, ganhou o referido nome devido a sua semelhança, vista de cima, ao leme de um navio. Antes de se tornar um bairro, o local era de difícil acesso, um completo areal deserto, onde só existiam as edificações do Forte do Vigia e algumas chácaras e sítios.


A atração das famílias à área era tão grande que houve, entre 1892 e 1894, o primeiro loteamento, cuja primeira via aberta foi a Rua Gustavo Sampaio, uma das mais importantes até dias de hoje. As primeiras terras, adquiridas pelo empreendedor Alexandre Wagner, em 1893, foram as chácaras do Leme, do Sobral e do Boticário, que se estendiam do Morro do Vigia (atual Morro do Leme) até a atual Rua Siqueira Campos.


Com a inauguração do Túnel Carioca (mais conhecido como Túnel Velho e hoje chamado Engenheiro Coelho Cintra), em 1906, o bairro, que tem como limites o oceano Atlântico e a cadeia de montanhas formada pelos morros do Leme (130 metros de altura), do Urubu (126 m) e da Babilônia (235), pôde ser contemplado com a linha de bondes da Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico, cujo ponto final era na praça próxima ao Forte do Vigia. Naquele mesmo ano, seria inaugurada a Avenida Atlântica, que margeia a orla do Leme e de Copacabana.


Visto ainda como um bairro boêmio, o Leme, com mais de um quilômetro de extensão, tem suas peculiaridades. No Morro do Leme, em 1776, foi criado uma fortificação, hoje chamada de Forte Duque de Caxias e desativada em 1975. Outras três estruturas militares também existiam no bairro: o Forte da Ponta do Vigia, o Forte da Ponta do Anel e o Forte Guanabara. A partir de 1934, duas comunidades também passaram a coexistir com as forças militares: Babilônia e Chapéu Mangueira. Desde 2009, ambas encontram-se pacificadas.


Apesar de ser uma região pequena, o Leme já foi bem maior. Ele ia até o atual Copacabana Palace Hotel, junto à Pedra do Inhangá. No entanto, com o desmonte do referido monte junto à praia e o encobrimento da parte pelos edifícios, o seu limite oeste desapareceu. A área, até a atual Avenida Princesa Isabel, acabou sendo incorporada ao bairro de Copacabana. Hoje sua área é estreita, com uma população de aproximadamente 28 mil habitantes.


Além de abrigar espaços importantes, como o Centro de Estudos de Pessoal (CEP) do Exército; o Forte Duque de Caxias com programações culturais variadas para a população; e o Caminho dos Pescadores, frequentado por estes e por turistas que procuram o local para assistir ao pôr do sol, o Leme também é lembrado por fatos que marcaram a sua história.


A tranquilidade do bairro é um ponto positivo que atrai turistas e personalidades


Um dos grandes destaques do Leme é a sua tranquilidade. Para muitos moradores, o caráter bucólico da região faz com que eles se sintam em uma cidade do interior. Outro aspecto que ainda chama a atenção e atrai muitos famosos para o bairro é o comércio pequeno, mas tradicional, onde muitos comerciantes ainda negociam pelo sistema de cadernetas. Entre os famosos atraídos por essas e outras peculiaridades foram o apresentador Chacrinha, a cantora Emilinha Borba, a escritora Clarice Lispector, os jornalistas Nelson Rodrigues Filho e Heloneida Studart, assim como o compositor Ari Barroso. Heloneida e Barroso foram homenageados com nomes de logradouros: ela emprestou sua alcunha para uma praça e ele, para a ladeira onde morou.


Uma das grandes referências do bairro é a praia. Muitos são os esportes praticados tanto na areia (futebol, futevôlei, vôlei, frescobol, slackline, etc.) quanto no mar (surf, boadboarding, pesca), que é conhecido por ser o local de chegada de um dos principais eventos da natação na praia, a Travessia dos Fortes. No calçadão, há também a escultura Baleia, do artista plástico Ângelo Venosa, instalada em 1998 na Praça Almirante Júlio de Noronha, após ficar oito anos na Praça Mauá.


Muitas são as atratividades do bairro do Leme, como a caminhada ecológica, com guias, que ocorre a cada três meses e onde o visitante pode conhecer um pouco da história da Mata Atlântica e da flora e da fauna do Morro do Leme, com destaque para o Pau-Brasil, o tié-sangue e o mico-estrela, e o polo gastronômico. Entre os restaurantes, o destaque vai para o La Fiorentina, que atrai muitos famosos e que possui pilastras exclusivas reservadas para os autógrafos. Também na gastronomia italiana, o evidenciado D´Amici atrai as atenções com um ambiente refinado, discreto e de alta qualidade. O Da Brambini e os despojados Taberna do Leme e Sindicato do Leme também são referências na paisagem, tanto pelos petiscos quanto pelas refeições completas.


Um clube (Leme Tênis Clube); dois teatros (Villa-Lobos e Princesa Isabel); 140 estabelecimentos comerciais; sete hotéis (está sendo construído o oitavo); uma escola (Colégio Santo Tomás de Aquino) e onze vias, além de 13 mil domicílios, são atualmente as estruturas do bairro do Leme. “Não me furto de elogiar esse que, para mim, é um dos lugares mais aconchegantes e familiares que eu conheço. Realmente não há nada igual. O Leme é um sinônimo de paz. Caminho, vou ao clube, converso com os vizinhos sem preocupação e conheço pessoalmente a maioria dos comerciantes. É um grande privilégio morar aqui”, diz o estudante Carlos Eduardo Araújo.


Para o presidente da Associação de Moradores e Amigos do Leme, Francisco Nunes (mais conhecido como Chicão), que mora na região há 50 anos, todos os pontos positivos do Leme poderiam fazer dele um bairro modelo na cidade do Rio. “Morar no Leme é como morar no paraíso e eu não troco ele por nada nesse mundo. Apesar dos problemas, de ordem generalizada, brigo se falarem mal dele. O Leme poderia realmente ser um bairro modelo aos olhos da Prefeitura. É pequeno, fácil de administrar e tem uma convivência super harmoniosa. Tenho toda a comodidade, desde o comércio até os meios de locomoção, como o transporte público. Os turistas ficam encantados; vive-se bem e ninguém quer se mudar daqui. Nesses 120 anos, o que eu espero é mais atenção por parte do poder público”, conclui Chicão, que afirma ainda que “Copacabana é tão conhecida mundialmente que começa dentro do meu bairro”.