Tito Madi relembra sua carreira e fala sobre Copacabana

Publicado na edição 358 (2ª quinzena de março de 2012)

Aos 83 anos, o cantor Tito Madi continua apaixonado pela música. Em seu confortável apartamento em Copacabana, dividido com a cadela Gabi, o artista recebeu a equipe do Jornal Posto Seis e conversou sobre sua carreira e vida pessoal. No ambiente, decorado com muitas fotos de sua família, relembrou sucessos como “Chove Lá Fora” e falou sobre sua relação com o bairro. Com parte do corpo paralisado após sofrer um AVC, em 2008, mostra-se solidário ao cantor Emílio Santiago, internado com o mesmo mal no dia da entrevista, e relembra algumas lembranças que fizeram dele um ícone da música popular brasileira.


Jornal Posto Seis: Como é continuar sendo querido e lembrado pelo público após tantos anos de carreira?

Tito Madi: Não estou em fim de carreira. Pelo menos não estava. Com o AVC, ela ficou prejudicada. Não canto mais como cantava. Fiquei prejudicado na emissão da voz. Ainda estou com o lado esquerdo todo paralisado. Saio de vez em quando, de cadeira de rodas, e as pessoas ainda me reconhecem.


Jornal Posto Seis: Quando o senhor cantava nas festas das escolas, aos dez anos, já tinha pretensão de ser artista ou encarava como uma brincadeira?

Tito Madi: Sou de uma família de músicos amadores. Aprendi violão com seis anos e tomava parte nas festinhas e no grupo escolar. Era mais uma brincadeira. Depois, comecei a ouvir música e apreciar cantores. No início, compunha com a parceria de poetas antigos, como Gonçalves Dias e Olavo Bilac. Tudo mudou quando fiz minha primeira música com letra e melodia, “Eu Espero Você”. Foi minha primeira produção completa. Eu tinha uns 16 anos.

Jornal Posto Seis: Como surgiu o nome “Tito”? Foi uma maneira de criar um personagem ou acreditava que o público tivesse dificuldade em gravar seu nome real (Chaukki)? Em relação ao sobrenome, também houve alteração (Maddi virou Madi). Por quê?

Tito Madi: Quando estreei na Tupi de São Paulo, depois do programa, o pessoal do auditório vinha atrás e perguntava meu nome. Achava Chaukki difícil e como Tito já era um apelido, adotei por facilidade.


Jornal Posto Seis: Como foi crescer sob a influência libanesa da sua família? O que percebia de diferente da cultura árabe trazida por eles para a realidade brasileira?

Tito Madi: Meu pai era músico e tocava alaúde (o instrumento encontra-se pendurado na parede da sala de seu apartamento). Recebi dele essa forma de romantismo, de sentimentalimso árabe, trouxe isso para a cultura brasileira. Eu escrevia músicas românticas e perguntavam se eu era triste. Eu não. Criava músicas em que era um personagem.


Jornal Posto Seis: Dentre suas composições, qual foi sua favorita?

Tito Madi: Favorita, não tenho nenhuma, mas algumas são mais populares e marcaram mais minha carreira, como “Balanço Zona Sul”, que como “Chove Lá Fora”, também é campeã de regravações. A mais conhecida é a versão do Zeca Pagodinho. “Chove Lá Fora” foi gravada no exterior por um conjunto, o “The Platters”.


Jornal Posto Seis: Quando o senhor veio para o Rio, praticamente recomeçou sua carreira do zero, pois o sucesso paulista ainda não havia chegado em terras cariocas. Analisando hoje, acredita que tenha sido uma mudança precipitada? Se soubesse que aqui não tinha tanta fama, teria vindo ou esperado mais tempo? A Rádio Tupi apoiou a mudança?

Tito Madi: Em 1955, vim para o Rio. Minha carreira começou em 1952, mas meu primeiro sucesso, “Não Diga Não”, foi só em 1954. Achava que estava estourado, mas a música não tinha chegado aqui ainda. Comecei como novato. Eu tinha que vir porque o local da música era aqui. Tinha a Rádio Nacional, que era fantástica. Depois, acabei realizando meu sonho e cantei lá. A Tupi me apoiou muito pouco. Uma vez, o maestro Carioca perguntou se eu tinha uma música que falasse de mentira. Eu disse: ‘não tenho, mas amanhã te trago’. Aí fiz “Mentira”, que também é campeã de regravações. A Leny de Andrade prometeu gravar alguma música minha. Fiquei chateado com a internação do Emílio Santiago, que iria gravar o CD com músicas minhas, talvez algumas inéditas. Tenho cerca de 20 músicas novas prontas. Tinha muito mais, mas esqueci com o AVC. (Tito comentou que muitas delas estão em fitas, mas que falta a ele um equipamento para escutá-las).


Jornal Posto Seis: Em 1992, o senhor gravou um CD com a Dóris Monteiro, outro ícone da música popular brasileira. Como foi essa parceria?

Tito Madi: Não cheguei a cantar junto com a Dóris. Cada um cantou sua parte e gravamos separados. A produção pretendia mostrar todos os ritmos do Brasil. Representamos o samba-canção. Pena que não houve muito trabalho da parte da fábrica.


Jornal Posto Seis: Qual a sua opinião sobre o espaço que os artistas da sua geração tem na mídia hoje?

Tito Madi: A mídia tá muito pequena hoje. Não temos músicas interpretadas nas emissoras, com exceção de alguns amigos e parceiros que gostam da gente. Eles tocam, mas a execução é muito pequena.


Jornal Posto Seis: Sobre os novos nomes da música, quais você destaca positivamente? O que você costuma ouvir hoje?

Tito Madi: Dos nomes novos, não ouço nenhum. Ouço “mais ou menos” novos. Gosto muito do Emílio Santiago, considero ele o melhor cantor. Também tem o Roberto Carlos, que diz que eu fui o artista que inspirou a carreira dele. Ele tinha prometido um disco com composições minhas, mas ainda não aconteceu. Aliás, se ele estiver lendo essa entrevista, que lembre da promessa feita e não cumprida.


Jornal Posto Seis: Qual a sua relação com o Rio hoje?

Tito Madi: O Rio mudou muito. Vivi na noite carioca por 20, 30 anos. O sucesso que alcancei foi devido à permanência na noite. Muitas casas foram fechadas. Hoje, a noite é mais pobre (em relação à parte cultural).


Jornal Posto Seis: Há quanto tempo mora em Copacabana? O que acha do bairro?

Tito Madi: Adoro Copacabana! Já morei em Ipanema, Leblon, no Leme, mas não tenho vontade de sair daqui mais. Antes, eu andava muito no calçadão e na praia.


Jornal Posto Seis: Como é a relação com seus filhos?

Tito Madi: A relação com eles é a melhor possível. Eles me apoiam em tudo e me deram quatro netos maravilhosos. Perdi minha esposa há 19 anos. Éramos uma família maravilhosa, ela também me apoiava em tudo, me acompanhava em quase todos os shows, quase sempre estava ao meu lado.


Tito Madi lançou 60 álbuns entre 1954 e 2001. Tornou-se conhecido, principalmente, pela forma suave de cantar. É considerado por muitos o precursor da bossa nova, apesar de definir seu estilo musical como samba-canção.