Pescadores da Colônia Z-13 contam suas histórias de vida no mar

Publicado na edição 391(1ª quinzena de agosto de 2014)

Raphaela Rangel

Com toda simpatia, criatividade, alegria e muita conversa, os pescadores da Colônia Z-13 de Copacabana, tem muitas histórias para contar. Sujeitos à chuva, sol, ventos fortes, correntezas, dias sem dormir e saudades da terra, eles contam que esses não são somente os problemas vivenciados no trabalho. A falta de reconhecimento é o principal obstáculo enfrentado na profissão.


Profissão antiga, que aos poucos se moderniza, torna-se difícil para quem não consegue se adaptar. Protagonistas das principais histórias dentro do mares e oceanos, os pescadores que integram a colônia, superam as adversidades dia após dia e enfrentam as desventuras com muita bravura em troca de um escasso rendimento. A profissão é pouco reconhecida e não é muito valorizada, mas motivos não faltam para que haja o prestígio indispensável a esses grandes profissionais. Apesar de não serem muito admirados, eles buscam o reconhecimento do trabalho.


Entre alegrias e tristezas, ser pescador é acima de tudo uma profissão onde o perigo é constante e anos no mar deixaram-lhe imensas histórias. É o que conta o pescador e vice-presidente da Z-13, José Manuel Pereira Rebouças, de 54 anos. Nascido na cidade de Fortin, localizada no litoral leste de Fortaleza, de uma família de pescadores, veio para o Rio em 1993, em busca de melhores condições de vida. Ele conta que sua vinda para o Rio foi muito difícil, veio apenas com os seus documentos e desde então faz parte da Colônia Z-13. Com seus 12 anos já enfrentava o mar aberto. “É uma rotina que muitas pessoas não imaginam. Tem pescadores que chegam a passar aproximadamente 30 dias no mar, para chegar com o seu pescado. Dependendo da região onde trabalha, o pescador leva em cerca de 3 a 4 dias para chegar ao destino da pesca, mas como a colônia Z-13 não se distancia muito da costa, vou e volto no mesmo dia, o que me possibilita uma melhor qualidade de vida”.


Pereira conta ainda que no Nordeste a pesca representada é a artesanal, caracterizada principalmente pela mão-de-obra familiar, feita com jangadas, o que se torna mais difícil, devido a consequência dos ventos. Relata história de sobrevivência que já vivenciou. “Me recordo de muitas vezes em que tive que ficar dias no mar, por causa da forte mudança dos ventos. Eu já salvei gente de naufrágio e eu mesmo no começo da minha profissão já sofri um, onde passei o dia inteiro naufragado. Foi uma situação desesperadora, a gente só pensa no pior nessas horas”. Outro pescador da colônia que trabalha na extensão da Z-13, na Lagoa Rodrigo de Freitas, Carivaldo Jacinto de Moura, de 64 anos, conta que trabalha há 40 anos na colônia e que desde os seus 13 anos pratica a atividade pesqueira. “A vida do pescador que enfrenta todo o dia o oceano, onde tem os maiores perigos, é muito difícil. Já vi de tudo aqui, mas nunca vi nosso trabalho ser reconhecido da forma que merece”.


Segundo os pescadores, o principal problema enfrentado por eles é a falta de assistência por parte do governo. “O pescador brasileiro não tem condições de sozinho arcar com as despesas de uma pescaria em alto-mar. Há uma concorrência desleal em relação às grandes embarcações de pesca. Precisamos de políticas mais adequadas à realidade artesanal para a atividade sobreviver. Dependemos muito ainda do governo para nos fornecer recursos necessários para a nossa profissão. Deveria haver uma assistência muito maior, já que o pescador trabalha para fornecer o alimento mais saudável”. - revindica José Manuel


O orgulho de ser pescador é fortemente demonstrado por eles, como conta Manuel: “não desejo mudar de profissão. Eu tenho muito orgulho do meu trabalho, até mesmo dos meus filhos serem pescadores também, porque hoje em dia é quase um milagre filho de pescador querer seguir o mesmo caminho da profissão. Carrego comigo o dito do meu pai. Ele dizia que queria que o mar tivesse sempre muitos peixes para trazer para a família. Consegui descobrir na vida que o mar é o maior elemento de inspiração, onde as coisas se transformam muito rápido. Muitas vezes entro no mar triste e volto feliz. Pescador não é só bom de história. É aquele que conhece a natureza e só de olhar para o mar, sabe a maré que vem e se vai ter uma boa pescaria ou não” - conclui.