Há 50 anos, o mundo perdia Ary Barroso

Publicado na edição 382 (2ª quinzena de março de 2014)

Ary Barroso no Carnaval de 1955, em Buenos Aires (Foto: Divulgação)

Há 50 anos, o mundo perdia Ary Barroso. O compositor de “Aquarela do Brasil” deixou sua obra imortalizada e continua sendo reconhecido nos dias atuais. Morador ilustre do Leme, Ary foi compositor, músico, comentarista de futebol, apresentador de programas de rádio e pai e avô de família. Para resgatar as lembranças desta figura que deixou saudades para os amigos e para o público, o Jornal Posto Seis conversou com seu neto, Márcio Barroso Salomão, que contou alguns aspectos da vida do avô.


Márcio, que é responsável pela Editora Aquarela do Brasil, administra todo o acervo há sete anos e conta que há interesse em transformar todo o material em um museu. No entanto, a falta de um espaço físico impede a inauguração. Porém, isso não o atrapalha de divulgar a obra de seu avô. Para marcar os 50 anos de sua morte, foi lançado um box com 20 CDs, totalizando 316 músicas, junto com um livreto que conta as histórias de cada composição.


Apesar da pouca idade na época do falecimento, Márcio guarda muitas lembranças do seu ilustre parente. “Quando tinha briga de casal entre os vizinhos, todos iam pedir conselhos. Ele recebia todos e não reclamava”, cita, lembrando que naquela época Ary sempre era reconhecido quando saía na rua, mas que a abordagem era bastante diferente da sofrida pelos artistas de hoje. “Eles estão cada vez mais elitizados, o que dificulta o relacionamento com o povo”, observa.


A casa do Leme também faz parte das recordações. O imóvel foi construído pelo cunhado de Ary em um terreno adquirido logo após o loteamento da ladeira, escolhida por ter luz e água encanada, diferente do Jardim Pernambuco, que era a outra opção. Há quem diga que o espaço teria sido doado por Roberto Burle Marx, mas a família desconhece esse fato. Márcio sugere que a confusão tenha acontecido devido ao paisagista também ser morador do local. Nos primeiros anos de sua vida, a grande casa no Leme era sempre cheia. Ary, como bom mineiro, apreciava a presença de seus descendentes. Viviam por lá seus dois filhos e mais cinco netos. “Às vezes ele reclamava da bagunça, mas quase sempre gostava”, lembra o neto, que guarda outra recordação carinhosa dele: “No Carnaval, eu tinha medo das pessoas que desciam o morro fantasiadas de reisado e ele descia pessoalmente com a gente para vermos que não eram monstros”. Outra lembrança curiosa do neto é a de brincar com os primos em um jardim de inverno cujo chão era decorado com a partitura de Aquarela do Brasil, feito especialmente para seu avô.


O imóvel foi o endereço da família até a morte do músico. Já debilitado, ele não conseguia mais descer as grandes escadas, o que chateava-o por não poder mais ver o povo. Por isso, seu médico sugeriu que ele se mudasse para um apartamento com elevador. Por isso, decidiu ir para Ipanema, mas morreu antes da mudança. Enquanto morador do Leme, teve a oportunidade de, ainda vivo, receber uma grande homenagem: a ladeira onde morava, que até então era considerada o número 66 da Rua General Ribeiro da Costa, foi renomeada em sua homenagem. Márcio não lembra de como o avô reagiu mas, antes da mudança do nome, Ary havia escrito em um depoimento publicado atualmente em seu site oficial (www.arybarroso.com) que sua maior mágoa era não ter seu nome em nenhum logradouro público de Ubá.


A casa foi vendida após a morte. A perda do pai fez com que Flávio, um dos filhos de Ary, não quisesse guardar as dolorosas recordações. Por sua vez, a filha do compositor, Mariúza (que é a mãe de Márcio), decidiu guardar tudo, desde reportagens até partituras. Ela se inspirou após uma viagem à Europa, onde constatou que os artistas antigos eram valorizados por lá e escreveu dois livros: um sobre suas lembranças com o pai e outro com trechos de colunas escritas por ele. Nenhum dos dois foi publicado ainda.


Dentre as relíquias guardadas, várias se destacam. Uma das mais curiosas é o diploma de nomeação do Oscar em 1945. Ao compor a melodia de “Rio de Janeiro” para o filme “Brazil” (Joseph Santley, 1944), Ary tornou-se o primeiro brasileiro a ser indicado à premiação. No mesmo ano, foi convidado para ser produtor da Walt Disney Productions, nos Estados Unidos. Antes disso, teve seu principal sucesso, “Aquarela do Brasil”, divulgado no exterior devido ao filme “Alô, Amigos” (1942) e produzido a trilha sonora de “Você Já Foi à Bahia?” (1944), ambos do mesmo estúdio.


O encontro com Walt Disney não aconteceu por acaso. Em viagem ao Brasil, em 1941, o americano encantou-se com “Aquarela do Brasil” (que havia sido composta dois anos antes), que tocava no aeroporto de Manaus (onde ele parou antes de vir ao Rio). Imediatamente, quis conhecer o autor. Ary tocou diversas de suas músicas para o empresário, o que futuramente resultou no convite. Nos quatro meses que ficou no exterior, o brasileiro fez uma grande amiga: Carmen Miranda. “Ele não tinha o domínio do idioma e ela servia quase que de intérprete. Por isso, estavam juntos o tempo inteiro. Eram tão amigos que teve até fofoca de que estariam tendo um caso, mas ela ligou para minha avó pessoalmente e desmentiu”, cita Márcio.


Ele destaca ainda que seu avô, apesar de ter sido o precursor em muitos aspectos, sofreu muita rejeição por parte de outros músicos. Questionado sobre o por quê, ele não sabe responder, mas sugere a seguinte hipótese: “no exterior, todos conheciam ‘Aquarela do Brasil’ e associavam ao Brasil. Quando chegava outro artista lá fora, tinha que cantar isso para saberem de onde eram”, palpita. Além disso, lembra até que Tom Jobim tentava convencê-lo a mudar o compasso de suas composições para agradar mais o público estrangeiro.


Para ele, Ary foi precursor em diversos aspectos. Além de ter aberto o caminho da música brasileira em outros países, Márcio destaca que alguns de seus discursos como vereador (ele foi eleito pela UDN) mostravam um pensamento bastante avançado para o período. Como político, já sugeria a coleta seletiva e a criação de um órgão de defesa civil naquela época. Foi dele a ação que determinou que o estádio do Maracanã fosse construído no atual endereço – a ideia era erguê-lo em Jacarepaguá.


Na nova arena, ele atuou também como comentarista esportivo. Márcio cita que ele colocava um microfone no campo, perto da antiga geral (setor popular defendido por ele), e ouvia os próprios torcedores através de um fone de ouvido. Torcedor do Flamengo, recusava-se a narrar os gols sofridos pelo seu time do coração, o que rendia cobranças da parcela do público simpatizante das outras equipes. “Eles falavam nesse microfone: ‘e aí, seu Ary?’”, cita seu neto. Dessa forma, passou a tocar uma gaita para anunciar esses fatos, o que tornou sua marca registrada como locutor. Sua importância foi tanta que ele foi homenageado com uma sala no interior do estádio. No entanto, após a reforma, ela foi destruída. A família tentou reaver os objetos pessoais contidas nela e o busto feito em sua memória, mas a ação foi em vão. “Não sabemos mais com quem entrar em contato. Ninguém sabe onde pode estar”, queixa-se Márcio.


O talento para conquistar o público fez com que Ary tivesse seus próprios programa na Rádio Tupi. Em “Seja Parceiro de Ary”, ele musicava poesias enviadas ou criava letra para melodias de terceiros. “Ele era muito crítico, mas não estava ali para destratar ninguém e sim para ajudar”, cita Márcio. No meio desses comentários, Ary ajudou a desenvolver a personalidade musical do então desconhecido Luiz Gonzaga, que apresentava-se em “Calouros em Desfile” tentando uma oportunidade ao som de boleros. Após diversas avaliações, o mineiro de Ubá sugeriu que ele experimentasse cantar músicas de sua região. Dessa forma, ele se tornou o rei do baião. Outros nomes que surgiram em seu programa foram Ângela Maria e Elza Soares.


Após 50 anos da morte de Ary, Márcio opina que a música brasileira sofreu uma involução. “O Brasil é ainda como uma colônia. É inadmissível ter a Copa do Mundo com artista de fora. Faltam oportunidades para o país crescer. Os americanos e europeus adoram música brasileira. Antes, ela era muito valorizada aqui porque não havia globalização. No exterior, a house eletrônica aproveita Diana Ross e Donna Summer e fica ótimo. Se tocar Imagine, ninguém diz que é coisa de velho”, cita, opinando que gostaria de ver canções antigas serem reaproveitadas e adaptadas ao período atual.


Atualmente, Ary é lembrado no Leme com a ladeira que leva seu nome, um busto na Praça Heloneida Studart e uma estátua no restaurante La Fiorentina – muito frequentado por ele, que chegou a assinar uma das paredes antes da pintura que apagou o autógrafo. Apesar de toda a relação com o bairro, Ary não se considerava nem carioca nem mineiro (ele nasceu em Ubá em 1921). “Nasci em Minas Gerais, descobri a Bahia em minhas músicas, mas o meu orgulho é ser brasileiro”, declarava.