Jornal Posto Seis homenageia Dick Farney em seu centenário


(Foto: Divulgação)

Se vivo, Dick Farney completaria 100 anos em 14 de novembro. O artista, um dos brasileiros com maior projeção no exterior, ficou marcado por incontáveis trabalhos de sucesso, mas foi em sua voz que a música “Copacabana”, de Braguinha, ficou imortalizada, ajudando a consolidar o bairro como um dos espaços mais famosos do mundo. Para celebrar a data, está previsto o lançamento de uma biografia escrita com auxílio de material deixado pelo próprio músico e por seu pai, Eduardo Dutra e Silva, que registrou a carreira do filho desde os primeiros passos, ainda na infância.


Nascido Farnésio Dutra e Silva, Dick era descendente de uma família de médicos e farmacêuticos que veio ao Brasil com Maurício de Nassau. Com o passar dos séculos, a fortuna foi multiplicada, o que lhe permitiu a iniciar os estudos de música ainda muito cedo – por ser tão pequeno, Eduardo encomendou um piano especial, menor, no qual o menino conseguia alcançar todas as teclas ainda nos primeiros anos da infância, e também um violino. A estreia nos palcos, tocando Beethoven, foi aos cinco anos, no Instituto Nacional de Música, e desde então, continuou se apresentando com o pai, seu maior incentivador.


O apelido “Dick” veio ainda nos primeiros anos, já que o garoto gostava de imitar o ator norte-americano Dick Powell, famoso por cantar, dançar e sapatear em alguns dos primeiros filmes falados da história do cinema. “Farney”, por sua vez, surgiu como sugestão de Eduardo antes de uma apresentação no Theatro Municipal, já que o filho não queria usar o nome de batismo e este sobrenome faria referência a ele. Nascia, então, Dick Farney, que cresceu em um ambiente propício ao desenvolvimento de sua carreira artística.


Durante muitos anos, a residência de Eduardo, em Santa Teresa, era uma das únicas no Rio a ter uma coleção de discos de vinis – a outra família que tinha algumas unidades era os Guinle, de quem os Dutra e Silva eram muito amigos. O material, muito caro no Brasil, era trazido de viagens anuais ao exterior e por isso, a casa era aberta aos domingos a quem desejasse escutá-los ou mesmo tocar algum instrumento com os filhos do patriarca, que, além de Dick, também era pai de Cyll Farney, igualmente talentoso na área musical, mas que dedicou-se a outro ramo das artes, se transformando em um dos fundadores dos estúdios Tycoon, na Barra da Tijuca. A mãe dos dois, Iracema, era artista plástica, o que tornava o espaço ainda mais parecido com um centro cultural – foi ela quem ensinou o filho a cantar. Todos os nomes influentes nas artes entre a década de 1920 e 1966 passaram por ali, como Tarsila do Amaral. Até Vinícius de Moraes, em entrevista, apontou o endereço como o mais badalado da cidade.


Não demorou para Dick fazer sua estreia solo nas rádios. Aos 14 anos, tocou piano na Rádio Mayrink Veiga; dois anos depois, cantou pela primeira vez. Ao lado do irmão, participou do conjunto Os Swing Maníacos. Ainda na adolescência, foi contratado pelo grupo que geria alguns dos mais importantes cassinos no cenário musical, como o da Urca (onde, posteriormente, foi crooner) e Quitandinha. Por ser menor de idade, coube a Eduardo assinar os primeiros contratos e enquanto despontava para a fama, o jovem foi convocado para Segunda Guerra Mundial.


Ainda que os Dutra e Silva fossem muito próximos de Getúlio Vargas, Dick pediu ao pai que não intercedesse e se apresentou, mas foi dispensado por um motivo muito peculiar: seu porte físico, alto e musculoso (devido aos treinos de boxe e luta greco-romana, modalidades ensinadas pelo pai, especialista em ambas), fazia com que ele não coubesse em nenhuma farda e a situação econômica do país impedia a compra de tecidos para confecção de novas peças. Chateado, voltou para casa e comentou o ocorrido com Eduardo, que, junto com os Guinle e outras famílias de empresários, financiou as roupas dos soldados. Dessa forma, Dick pôde participar do conflito, mas devido ao seu sucesso musical, foi convidado a se apresentar para os fuzileiros navais norte-americanos, que estavam no Brasil para treinar os militares que iriam para a Europa.


A apresentação, na qual o artista cantou e tocou músicas conhecidas nos EUA, em inglês, fez com que Dick fosse destacado para servir no Palácio do Governo, onde se tornou cicerone de todos os eventos com o Governo norte-americano e soldados. Também fazia parte da guarda pessoal de Getúlio Vargas quando foi convidado para gravar um V-disc, discos de 78,5RPM (formato que inviabilizava a reprodução em vitrolas convencionais e rádios, o que impedia a comercialização), com os artistas considerados os melhores do mundo, exclusivamente para serem enviados aos soldados que lutavam no conflito e que estavam emocionalmente abalados. Dos 400 gravados, Dick participou de sete, sendo o único nome brasileiro a integrar esse projeto, inclusive cantando em português a música “Um Cantinho de Você”. As outras seis foram em inglês, em discos com o Bill Crosby, idealizador das gravações, e também com Frank Sinatra, com quem seria muito comparado ao longo de sua carreira pelo talento, elegância e discrição – não a toa, em 1949, o “Sinatra Farney Fan Clube” foi fundado na Tijuca por apreciadores de ambos os artistas, inclusive João Donato, que se reúnia com outros membros para escutar gravações dos dois.


Com o fim da guerra, Farney terminou os contratos pendentes com a Mayrink Veiga e os cassinos e após encontro no Copacabana Palace com o arranjador Bill Hitchcock e o pianista Eddie Duchin, foi aos EUA, onde finalmente deu início à sua carreira internacional, sem, entretanto, deixar o Brasil de lado – a cada três meses, o artista retornava e passava ao menos 20 dias em seu país-natal, o que possibilitou lançamentos simultâneos locais e internacionais. Assim que chegou, contou com o apoio de Carmen Miranda, sua grande amiga e única artista brasileira, até então, a conhecer aquela realidade de fazer carreira em um país estrangeiro. Os dois eram tão próximos que Dick chegou a se hospedar na casa dela, em Beverly Hills, onde passou alguns Natais, e a intimidade era compartilhada pela primeira esposa dele, Cibele, e a mãe de Carmen, que chegou a ser salva pelo músico após um terremoto que surpreendeu o quarteto em um passeio fora de Los Angeles.


O primeiro contrato nos EUA foi firmado com a mesma facilidade de todos os passos de sua carreira até então. Ao reencontrar Duchin e ser chamado para assumir o piano em um ensaio, recebeu o convite para gravar por lá ainda em sua terceira música, já que que estava tocando e cantando, algo até então feito apenas por Nat King Cole.Ironicamente, ficou famoso cantando, ainda que seu sonho sempre tenha sido ser pianista de jazz – mais tarde, tornou-se um dos mais influentes do gênero no Brasil, influenciando as gerações seguintes de pianistas, já que foi pioneiro no jazz no país, revolucionando a música local, então restrita às serestas.


Foi nessa época que surgiu o convite, feito pelo próprio Braguinha, para gravar “Copacabana”. A música foi composta especialmente para Dick cantar, em português, mas a ideia original era fazer um arranjo com cuícas e pandeiros, expondo a “brasileirice” da canção, o que foi recusado pelo cantor. Dick fez questão de gravar, em homenagem a seu pai, com uma orquestra com 18 violinos, harpa e outros instrumentos. A ideia desagradou tanto o compositor quanto a gravadora, mas foi adotada por insistência do artista, que inaugurou ali um novo estilo de cantar no Brasil. Dick inspirou-se em Bill Crosby e mesmo sendo um barítono, cantou com tom mais baixo, o que foi muito durante toda sua vida – diziam que ele estava tentando americanizar a música brasileira, semelhante aos comentários negativos destilados a Carmen Miranda, novamente única pessoa a conhecer a realidade vivida pelo músico.

Ainda assim, a música foi um divisor de águas, tornando-se um grande sucesso também no exterior. Apesar do êxito, não foi o único grande marco em sua carreira: o show “Meia Noite em Copacabana”, de 1956, cujo estilo se assemelhava aos espetáculos da Broadway, foi lançado em disco e a mistura do samba com o jazz fez do trabalho um dos pontapés iniciais da bossa nova, estilo musical que seria consolidado apenas dois anos depois, quando Elizeth Cardoso gravou “Chega da Saudade”. Farney ainda criaria o samba-canção, um dos segmentos no qual foi consolidado (os outros foram o jazz, sua paixão, e a música popular americana).

O sucesso de Dick ultrapassou todas as fronteiras possíveis naquele momento. Durante 15 anos, foi o maior vendedor de discos na Argentina e no Uruguai, ainda que os trabalhos tenham sido lançados sem sua presença. Em muitos países, como o Japão, novos CDs e discos foram prensados recentemente, mostrando que o interesse pelo artista ainda é enorme. No Brasil, continuou sua carreira de sucesso, o que o levou a apresentar vários programas na TV e na Rádio Record, como Dick Farney Show, Dick Farney e Você, Radiolândia, Programa By Line Room, Dick e Betty 17 (no qual atuou com Betty Faria na estreia da TV Globo), Show da Noite, Dick Farney no Comando (com Cyll e Darlene Glória), entre outros. Ao longo dos anos, fundou ainda duas boates em São Paulo, a Farney’s e a Farney’s Inn. Com isso, passou a morar em São Paulo, sendo sua última residência uma casa construída nas margens da Represa Billings. Morreu em 1987, vítima de edema pulmonar.


Toda essa história, assim como os antecedentes da família Dutra e Silva, estão presentes no livro “Dick Farney – Alguém Como Tu”, escrito por Mariangela Toledo Silva, filha da segunda esposa de Dick, Adriana. Ainda na adolescência, a jovem, espontaneamente, começou a catalogar informações sobre a carreira do tio, que brincava que se alguém produzisse sua biografia, tinha que ser ela. Por isso, o artista a informou sobre a existência de um baú com todos as informações sobre sua vida profissional. Após sua morte, metade do acervo foi conservada pelo seu filho, Edu Farney, e a outra metade com Adriana, que ficou muito abalada com a perda e, portanto, o material continuou lacrado até depois de sua morte, em 2001. Foi quando Mariangela abriu o baú, pela primeira vez, e se deparou com livros registrando cada passo de Dick no mundo musical, desde a infância.


Coube a Eduardo dar início a esse trabalho, ainda na década de 1920, e depois ao próprio músico. Contratos (inclusive com a Walt Disney Company, estúdio no qual desenvolveu vários trabalhos para crianças, como uma regravação de “Someday My Prince Will Come”, tema da Branca de Neve, em jazz), relação de vendagem em muitos países (que mostram que ele chegou a superar Sinatra com “Tenderly”, escrita por Walter Cross especialmente para ele) e outros materiais também estavam guardados ali, além de muitas fotos pessoais, como a de um Natal com Carmen Miranda, onde ela aparece com roupas bastante discretas, visual muito diferente do conhecido popularmente. Junto da papelada, foi acrescido mais informações, fruto de pesquisas em jornais e revistas, o que resultou em um livro de 600 páginas que narra desde a vinda da família, no século XVII, até ao fim da vida de Dick.


O livro estava previsto para ser lançado em novembro, celebrando o centenário, mas devido à pandemia, houve um atraso na produção. Novas informações devem ser divulgadas em breve. Enquanto o título não chega às livrarias, Mariangela e Edu (que define o pai como um homem com qualidades fascinantes, muito modesto e muito educado em sua intimidade) comercializam canecas e camisetas com o propósito de financiar o Instituto Dick Farney, que realizará, a partir de março de 2022, exposições itinerantes sobre o artista em várias localidades do Brasil. O material pode ser encontrado no Mercado Livre ou encomendado pelos celulares/WhatsApp (11) 96264-6510 e (11) 99026-9739, com Mariangela ou Andréa Roberta, ou (21) 99701-6080, com Edu.