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Jornal Posto Seis completa 30 anos

Capa da edição número 1
Capa da edição número 1

Há 30 anos, os barcos da Colônia dos Pescadores ilustravam a capa da primeira edição do Jornal Posto Seis. Naquele fevereiro de 1996, a publicação, fundada por Mauro e Ana Franco, chegava ao mercado sem a pretensão de se tornar o expressivo veículo comunitário que se tornou nos anos seguintes: a ideia era apenas agregar e valorizar a região do Posto 6, criando um canal de comunicação para que moradores e comerciantes pudessem ter voz diante das autoridades locais. Ao longo das décadas, a abrangência cresceu junto com a popularidade e o carinho do público-leitor, o maior responsável pelas três décadas de circulação ininterrupta.


Com uma relação marcada por muitas parcerias, nos anos iniciais o escritório do Jornal Posto Seis funcionava de portas abertas, recebendo todos que desejavam conversar sobre Copacabana, Leme e outros assuntos. Daqueles encontros, nasceram amizades. Algumas ultrapassaram as barreiras jornalísticas e viraram assunto de bar... no caso, “Conversa de Botequim”. As crônicas do “Barão do Posto Seis” resultaram na coluna de maior sucesso nesse tempo. As histórias, fictícias, geravam uma grande identificação com os leitores, que se divertiam com os textos. Posteriormente, eles foram agrupados em um livro, cujo prefácio foi assinado por João Roberto Kelly e a capa, elaborada por Albery.


Capa do livro "Conversa de Botequim", assinada por Albery
Capa do livro "Conversa de Botequim", assinada por Albery

Desses encontros, também saíam diversos outros assuntos, como pautas que ilustraram a força comunitária da região. Como esquecer, por exemplo, da mobilização que envolveu toda a construção do metrô Siqueira Campos? Foram muitas lutas encabeçadas pelo jornal, e abraçadas pelo público. Naquele ano de 1998, foi anunciada a construção de um shopping sobre a futura estação, projeto que incluía a demolição do 19º BPM e do Centro Municipal de Saúde João Barros Barreto. A proposta previa a transferência do batalhão para o Leblon e do posto de saúde para Botafogo, o que gerou forte mobilização: ninguém gostou das notícias.


Com a pressão comunitária, o Governo recuou, Copacabana ganhou mais esta estação de metrô e continuou tanto com o posto de saúde quanto com o batalhão. Este foi tema também da luta mais recente do jornal, por um motivo igualzinho ao lá de trás: mais uma vez, o Governo queria levá-lo de Copacabana. Novamente, o povo se manifestou e venceu. De novo, o Jornal Posto Seis participou.


Outros movimentos também consolidaram essa relação humana da publicação com os leitores. O Posto Seis deixou de ser apenas papel e virou um amigo, um confidente de quem desejava pedir socorro. Assim, houve apoio para a criação do Conselho Comunitário de Segurança Pública; às manifestações contra um abrigo para população de rua na Rua Siqueira Campos – o prédio acabou virando uma creche municipal; à preservação do Parque Peter Pan, que chegou a ser fechado e teve seu futuro ameaçado; à reforma do Clube Cultural e Recreativo Posto 6, valorizando a terceira idade que dependia daquele espaço para o lazer; à inauguração da UPA, cuja obra fora interrompida na fase final; à preservação do assacu da Rua Pompeu Loureiro, árvore centenária que foi ameaçada de corte ainda que estivesse saudável e sem oferecer riscos... Foram tantas batalhas que não caberiam em um texto, mas talvez a mais extensa seja a em prol do Museu da Imagem e do Som, cuja obra foi iniciada em 2010 e ainda não foi entregue. Um ano depois (2011), o Teatro Villa-Lobos pegou fogo e também foi abraçado pelas incontáveis reportagens cobrando sua reabertura.


O jornal virou fonte de memórias


Dorival Caymmi recebeu a equipe do Jornal Posto Seis em seu apartamento
Dorival Caymmi recebeu a equipe do Jornal Posto Seis em seu apartamento

Inumeráveis foram também as personalidades, majoritariamente de Copacabana e do Leme, que concederam entrevistas exclusivas. Dorival Caymmi foi um que recebeu a equipe em seu apartamento, onde não apenas conversou como também cantou – ele foi capa da respectiva edição e, posteriormente, autografou uma cópia impressa em papel fotográfico, ainda conservada no acervo do Jornal Posto Seis (onde todas as edições, desde a número 1, estão guardadas, mantendo vivo os registros das três décadas). Outros nomes também deixaram suas marcas em diversas reportagens, como Elza Soares, Dercy Gonçalves, Tito Madi, Dóris Monteiro, Sansão Pereira, Marlene, Eliana Pittman, Watusi, Fernando Reski, Emilinha Borba, Braguinha, Heloneida Studart, Arthur Xexéo, Monique Lafond, Berta Loran (recentemente falecida aos 99 anos)... Esta edição, a 601, mantém viva essa tradição, com reportagens sobre João Roberto Kelly (página 5) e Clóvis Bornay (página 10), ambas figuras presentes nos textos há muito tempo.

Além das entrevistas, outras diversas personalidades receberam memoriais em datas marcantes, como Nelson Sargento, Heitor Villa-Lobos, Rodolpho e Henrique Bernardelli, Fábio Sabbag, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Orlando Silva, Oscarito, Vinícius de Moraes... Dois spoilers: está sendo produzida uma reportagem sobre Jorge Goulart, enquanto uma série sobre os moradores dos primórdios de Copacabana, como Eliseu Visconti e Gastão Lamounier, está em fase de planejamento. Houve também espaço, e sempre haverá, para homenagear personalidades da região, como Tia Leah, uma das precursoras do vôlei nas areias do bairro; Seu Nonô, que confeccionava redes de vôlei artesanalmente; Jorge de Paiva, poeta que conheceu uma Copacabana bastante diferente da atual – certa vez, ele chegou a conversar com a equipe do Posto Seis sobre a ocasião em que estava na escola e foi surpreendido com o estrondo de um tiro de canhão no Forte; a pedagoga Iolanda Maltaroli, que fundou o Solar Meninos de Luz após o desabamento de uma caixa d'água no morro do Pavãozinho, o que soterrou muitas moradias na região.


A memória do bairro, entretanto, não foi eternizada apenas por meio de nomes célebres. Anônimos com histórias para contar também ganharam espaço, principalmente os centenários. Em casos especiais, as reportagens ultrapassaram as barreiras físicas de Copacabana, como quando contaram a vida da supercentenária Josephina Maria da Conceição, que completava 110 anos naquela ocasião; ou quando relembraram histórias de veteranos da Segunda Guerra Mundial; ou quando contaram a história da palhaça Ruth Mezeck, que recentemente completou 90 anos e segue em atividade; ou até quando revisitaram endereços de clássicos da literatura brasileira, como “O Cortiço” e “O Ateneu”... houve muitas!


Com o tempo, a equipe de reportagem percebeu que o público tinha apreço por ler memórias, conduzindo outros materiais produzidos com o objetivo de preservar lembranças. Assim, nasceu a coluna “Os Cinemas de Copacabana”, um sucesso de acessos no site. A procura levou à produção de outros materiais na mesma linha, resultando, no contexto dos 130 anos do bairro, em uma série de reportagens sobre particularidades que ficaram no passado – muitas delas sinalizadas por leitores, mostrando que a relação construída ao longo dos 30 anos manteve-se firme.


Alguns dos detalhes mencionados, e cujos textos estão disponíveis no site, relembram a história do bairro: o cabaré de Mère Louise, o primeiro estabelecimento comercial de sucesso da região; a clínica médica do Dr. Figueiredo Magalhães, que, indiretamente, mais tarde, levou à abertura do Túnel Velho; as sete igrejas já demolidas (muitas delas esquecidas com o tempo); as ruas antigas, que tiveram seus traçados alterados ou nomes modificados; alguns comércios notórios “das antigas”; o passado e o presente da Colônia dos Pescadores, que recentemente completou seu primeiro centenário; o Santuário Nossa Senhora das Graças; o Parque da Chacrinha, último espaço colonial da região; as casas e os prédios que deixaram suas marcas... Foi, inclusive, durante essa série, que o Jornal Posto Seis relembrou as origens do réveillon de Copacabana, citando que surgiu como uma criação da umbanda. Nos últimos dois anos, o assunto ganhou visibilidade nas redes sociais, levando o prefeito Eduardo Paes a anunciar, no começo de 2026, uma estátua de Tata Tancredo, o pai da festa, em localidade ainda não divulgada.


Jornal comunitário de verdade


Ainda que essas pautas tenham feito sucesso, foram nas campanhas de arrecadação que a relação com os leitores ficou evidente. A primeira, em 1998, foi em prol da menina Gisele, então com oito anos. Diagnosticada com câncer, ela perdeu seus globos oculares e seu corpo rejeitou as primeiras próteses recebidas. Como sua mãe não possuía recursos para uma nova cirurgia, o jornal foi procurado para ajudar. A mobilização levantou o valor necessário, e ainda sobrou para comprar materiais escolares adaptados para a menina, que havia ficado cega, usar. A partir daí, diversas outras transformaram realidades, mas a maior foi a do Natal Sem Fome, em 2001.



Alimentos arrecadados em uma das campanhas em prol do Solar Meninos de Luz
Alimentos arrecadados em uma das campanhas em prol do Solar Meninos de Luz

A participação dos leitores foi imensa: ao todo, foi arrecadada quase 1 tonelada de alimentos, incluindo arroz, feijão, macarrão, açúcar, óleo, sal, fubá, leite, achocolatado, farinhas diversas, latas de sardinha, extrato de tomate, biscoito e muito mais. Outras instituições, como o Solar Meninos de Luz, no Pavão-Pavãozinho; a Escolinha Tia Percília, na Babilônia, e tantas mais também foram incessantemente contempladas, ou tiveram suas necessidades divulgadas.


Algumas reportagens foram pioneiras em suas editorias


Algumas dessas instituições abriram portas para outra linha editorial, fazendo do Jornal Posto Seis um porta-voz de pautas relacionadas à inclusão, focando principalmente nas possibilidades de cada um, não nas deficiências – visão esta que, há 30 anos, era ignorada na sociedade, que enxergava o PCD como alguém incapaz de fazer qualquer coisa. Eventos como um baile acessível que, até antes da pandemia, acontecia no Méier; a confraternização Grãos de Gratidão, que em algumas ocasiões durante o ano reúne crianças em realidade hospitalar para apenas se divertirem; a festa junina do Amadinhos Down e tantos outros sempre ganharam espaço porque a equipe de reportagem entende a importância de espaços de confraternização. Histórias particulares de superação, como a da pintora Aline Korb, tetraplégica e cega de um olho que vive no CTI geral do Hospital Pedro Ernesto desde 2001, e que nesse tempo, produziu incontáveis telas usando apenas a boca; e o então menino Abhay Zukoski, que passou por mais de 60 cirurgias ainda na infância e se destacou como escritor – até os dias atuais. Abhay, agora com 19 anos, mantém contato com a equipe de reportagem e segue escrevendo.


Outra linha editorial em que o Jornal Posto Seis foi pioneiro foi a de meio ambiente. Naquele meado da década de 1990, isso ainda não era uma preocupação na sociedade, mas as reportagens abriram portas para esse tipo de debate entre os leitores. Naquela época, as pessoas não enxergavam problemas em não recolher as fezes dos cachorros nas calçadas ou em pegar o próprio lixo produzido na praia e levar para uma lixeira – a Lei da Limpeza Urbana, que fixou regras para questões como essa, saiu do papel apenas em 2001. Outros assuntos, como as línguas negras e até a despoluição da Baía de Guanabara ganharam evidência, assim como os mutirões de limpeza de praia e outros ecossistemas. Essas ações se popularizaram, mas no começo, eram poucas e o Posto Seis noticiava diversas delas. Numa dessas reportagens, a equipe acompanhou pesquisadores do Projeto Ilhas do Rio para monitorar baleias e para a surpresa de todos, 17 animais apareceram na frente de Copacabana, cenário que foi registrado em imagens e impensável para a maioria das pessoas.



Ao longo desse caminho, o reconhecimento veio de muitas formas - nunca como objetivo, mas como consequência natural de uma trajetória construída com escuta, presença e compromisso. Vieram os prêmios de comunicação concedidos por clubes de serviços e entidades comunitárias; os diplomas de reconhecimento e mérito outorgados por academias de Letras e Artes; os certificados de congratulações de instituições educacionais; o título de Colaborador Emérito do Exército Brasileiro; além de moções e da Medalha Pedro Ernesto, concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Cada homenagem carrega mais do que um nome impresso: elas trazem histórias, lutas compartilhadas e a certeza de que um jornal comunitário pode, sim, transformar realidades.


Talvez o maior prêmio do Jornal Posto Seis nunca tenha cabido em molduras ou solenidades. Ele está na confiança de quem bateu à redação pedindo ajuda; de quem ainda procura a equipe, digitalmente; e de quem também confia para publicar os anúncios de seus negócios. Passados 30 anos daquela primeira capa, o jornal segue fazendo o que sempre fez: caminhando junto, ouvindo, registrando e cuidando porque enquanto houver histórias para contar e gente disposta a lutar pelo lugar onde vive, o Posto Seis continuará existindo — não apenas como jornal, mas como parte viva de Copacabana e do Leme.

 
 
 

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