Cine Royal, Alaska e Holliday


A década de 1950 foi marcada pela inauguração de diversas salas de cinema no Posto 6. A construção do Edifício Alaska resultou em dois na região: o Cinema Royal e o Cine Alaska, que, junto com as casas noturnas que funcionavam naquela galeria, fizeram do local um ponto de diversão e boêmia no bairro, composto também por outras salas que serão citadas em edições posteriores.


O Royal, de propriedade do empresário Lívio Bruni, abriu as portas em 1952 e, de início, foi bastante criticado por funcionar antes mesmo que o prédio fosse fi nalizado. Além disso, o preço dos ingressos também desagradava o público, que achava a entrada cara demais – ela custaria o equivalente ao dobro das outras salas. O valor era justificado pelo luxo e pela modernidade oferecidos, como o tratamento acústico desenvolvido pelo arquiteto A. Michailovsky, responsável por cinemas e teatros diversos na Europa, mas não foi suficiente para poupar o local de ser multado pela Comissão Federal de Abastecimento e Preços (Cofap), órgão criado para controlar o aumento dos preços dos artigos e serviços considerados essenciais e que, posteriormente, chegou a tabelar os ingressos.


Em um primeiro momento, o Royal, localizado no sub-solo da galeria e com 300 poltronas, exibia apenas programas curtos, o que o levou a ser apelidado de “Cine Passatempo”, mas desde as primeiras sessões já era sabido que, logo, outra empresa se instalaria em outro salão da mesma galeria. O Cine Alaska abriu suas portas em 1953, com a exibição da produção argentina “Uma Mulher Chamada Margarida”.


Na década de 1960, tanto o Royal quanto o Alaska foram considerados deficientes em relação às exigências de segurança contra incêndios determinadas pelo Corpo de Bombeiros, mas apesar das constantes denúncias, ambos seguiram em funcionamento e recebendo público. Naquela época, o Alaska foi um dos primeiros a dedicar parte de sua programação aos programas eróticos que, posteriormente, seriam o chamariz de diversas salas. Os shows de mulheres nuas tinham início à meia noite (eventualmente, às 23h), mas essa tentativa de apostar em produções menos nobres durou pouco tempo: logo, o espaço tentou se transformar em um cinema de arte, com produções de países como Índia e Japão.


Um dos principais eventos dessa fase foi o festival “O Teatro e o Cinema”, organizado pelo ator Echio Reis em colaboração com a Associação Brasileira de Cinemas de Arte. As sessões, sempre às segundas-feiras, às 18h, exibiam produções adaptadas de peças teatrais. Na estreia, o público pôde conferir “Júlio César”, baseada na tragédia de Shakeaspeare, mas outros títulos, como “Romeu e Julieta”, também conquistaram os espectadores, que, a partir da década de 1970, puderam conferir encenações presencialmente, já que o cinema foi transformado no Teatro Alaska, posteriormente renomado Espaço das Artes e que foi transformado em igreja em 1998.


Já o Royal continuou em atividade, mesclando a exibição de filmes com outras opções de entretenimento. Em 1968, a apresentação do mágico Chico Anacleto resultou em um incidente que virou notícia após dar errado: em um número com pombos, um dos animais fez necessidades na cabeça de uma frequentadora, esposa de um político importante. Isso fez com que o artista fosse expulso da sala, mas a recepção negativa não tirou seu bom humor: em relação ao ocorrido, Anacleto apenas comemorou não ter sido ocasionado por um peru, animal muito maior e que causaria problemas na mesma escala.


O local, com 250m2, chegou a ser leiloado pouco tempo depois, quando a Galeria Alaska já havia se transformado em um lugar decadente, mas o novo proprietário manteve o cinema em atividade. Em algum momento, seu nome foi alterado para Cine Holliday e esta nova fase acompanhava a falta de prestígio do endereço, que só viria a ser revitalizado no começo da década de 1990. Se, no passado, aquele espaço prometia luxo e modernidade, nesta nova fase os atrativos eram os valores populares, que eram convidativos para uma parcela humilde do público, que não tinha acesso a cinemas antes, mas que ali assistiam filmes de lutas marciais exibidos com baixíssima qualidade de projeção. Eles dividiam espaço com produções eróticas, exibidos em outros horários, e que em sua maioria atraíam homens moradores do entorno e na faixa dos 50 anos. Apesar das tentativas de se manter em funcionamento, o Holliday chegou ao fim em 1986, quando a loja também foi transformada em igreja, tendência que atingiu diversos espaços de diversão no bairro, antes um centro de diversão, mas naquela altura, já em desprestígio devido ao deslocamento do poder aquisitivo da população para Ipanema, Leblon, Gávea e Barra da Tijuca.

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