Fortaleza de São João, local de fundação da cidade, possibilita passeio rico em história


O muro de 1616 ainda está de pé na Fortaleza de São João
O muro de 1616 ainda está de pé

“Seja bem vindo ao local onde, em 1565, Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro”. A placa com esses dizeres, instalada na entrada da Fortaleza de São João, na Urca, indica aos visitantes a razão daquele espaço ser um endereço histórico. Passados 456 anos da chegada do militar português, muito daquele passado é conservado na fortificação, aberta para visitação guiada, mediante agendamento de grupos de até 10 pessoas.


O local é apontado como o sítio de fundação da cidade, ainda que o marco tenha sido transferido para o Morro do Castelo, que ficava no Centro, dois anos depois – com a demolição do monte, foi transferido para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca. Apesar de a peça não estar mais lá, ela é representada por uma réplica no museu situado na fortificação, mas até chegar lá, a caminhada é extensa. Por isso, é indicado o uso de tênis e protetor solar. Durante todo o percurso, um militar encarregado explica não apenas a história, mas também detalhes, como o de como alguns dos canhões expostos após serem retirados do fundo do mar e os bastidores por trás do reflorestamento que modificaram a paisagem no Morro de Nazaré, vizinho ao Pão-de-Açúcar.

Pórtico da Fortaleza de São João
Pórtico da antiga fortaleza

Da fortificação primitiva erguida por Estácio de Sá em 1565, nada restou, mas o muro da construção que sucedeu àquela, em 1615, ainda está de pé, pertinho da Praia de Fora, local exato do desembarque. A estrutura convida os visitantes a seguirem a caminhada pelo Morro Cara de Cão, onde o primeiro assentamento português foi instalado, com 150 homens. O lugar foi escolhido por uma razão estratégica: os franceses já estavam ocupando a região que, atualmente, integra a Praia do Flamengo, e haviam construído o Forte Coligny na Ilha de Serigipe (posteriormente renomeada como Villegagnon). O relevo possibilitou um desembarque discreto por parte dos portugueses, que se alojaram ali e conseguiram programar o ataque que expulsou o outro grupo.


Logo na entrada, ficava o reduto mais antigo, o de São Martinho (1565). Originalmente de pau a pique, nada restou da arquitetura original da construção, a primeira feita pelos portugueses em solos cariocas. As incontáveis reformas ao longo dos séculos trasformaram o visual do espaço, que mais parece uma praça que um lugar militar. Ao lado, fica o de São Diogo (1618) – após a inauguração deste, a área foi transformada, oficialmente, em uma fortaleza. Ambos funcionavam na defesa da entrada do complexo, cujo pórtico fica exatamente no meio dos dois. A partir dali, começa um caminho de quase 2km, pavimentado por paralelepípedos para ajudar as visitas do imperador D. Pedro II ao local (ele ia pessoalmente verificar o andamento das obras de modernização encomendadas por ele).

Em meio à caminhada, paisagens já conhecidas dos cariocas se descortinam em ângulos inéditos para a maioria. Da lateral de uma antiga guarita, parte da Urca e a orla de Botafogo e do Flamengo são as atrações, com o Corcovado ao fundo. Seguindo, exemplares diversos da fauna e da flora locais podem ser avistados – no dia da visita da equipe do Jornal Posto Seis, três jacupembas, aves apontadas como raras de serem vistas no local, puderam ser contempladas.

Jacupembas na Fortaleza de São João
Jacupembas
Bateria Coronel Marques Porto, na Fortaleza de São João
Bateria Coronel Marques Porto

Seguindo o passeio, chega-se à Bateria Coronel Marques Porto, usada até 1979. Seus canhões, fabricados em 1893, foram transferidos no começo do século XX por navios da Marinha e marcaram uma nova etapa da artilharia de fortificações, com alcance de mais de 15km, o que surpreendia embarcações inimigas. Mais à frente, novamente a paisagem volta a impressionar pela beleza. Daquele ponto, pode-se ver um panorama do Centro, do aeroporto Santos Dumont, da ponte Rio-Niterói e do litoral daquela cidade, além de parte da Baía de Guanabara. O destaque fica por conta do Forte Tamandaré da Laje, situado em uma ilhota na entrada dela e visível de bem perto.

Forte da Lage visto da Fortaleza de São João
Forte da Lage
Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, vista da Fortaleza de São João, no Rio
Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói

Aquele é o melhor ponto de todo o Rio de Janeiro para conferir a construção do século XVII e, que, no passado, serviu de prisão para nomes importantes como o líder da Revolução Farroupilha, Bento Gonçalves. Parte do litoral de Niterói, com o Museu de Arte Contemporânea e a Praia de Icaraí visíveis, complementam o visual.

O canhã-vovô, que fez história no Exército Brasileiro, fica no Reduto São Teodósio, na Fortaleza de São João
O canhã-vovô fica no Reduto São Teodósio

Caminhando mais um pouco, chega-se ao terceiro dos redutos, o de São Teodósio (1572). Ele foi uma das primeiras defesas da região instaladas pelos portugueses, que haviam chegado ao Rio apenas sete anos antes. Bastante reformado ao longo dos séculos, atualmente é o endereço do “Canhão-Vovô”, que por muito tempo foi o maior do Exército brasileiro – para carregá-lo, eram necessários 15 homens, que levavam 20 minutos para prepará-lo para atirar. A peça, fabricada em 1872, foi usada na Revolta da Armada, movimento contrário ao governo de Floriano Peixoto.

Forte São José, na Fortaleza de São João
Forte São José
O Museu Histórico da Fortaleza de São João fica no antigo paiol do Forte São José
Museu Histórico da Fortaleza de São João

Alguns metros à frente, fica o Forte São José, construído por ordens de D. Pedro II no lugar do reduto homônimo, que, no passado, teve grande importância ao defender o território contra a invasão da esquadra do corsário Jean-François Durclérc (1710). O antigo paiol deu lugar ao Museu Histórico da Fortaleza de São João. O local apresenta materiais variados contando a história da fortificação. Paineis e peças variadas ajudam a contextualizar o período retratado. É ali, inclusive que os visitantes podem conferir a réplica do marco de fundação da cidade, mencionado no início desta reportagem. O passeio continua pelo pavimento inferior, acessado pelas escadas situadas do lado de fora. Ali, existem 17 casamatas bem conservadas, por onde o passeio é encerrado.

Forte São José, na Fortaleza de São João, com o Pão-de-Açúcar ao fundo
Forte São José, com o Pão-de-Açúcar ao fundo

As visitas devem ser agendadas previamente pelos telefones 2586-2291 e 97295-5891 (que também é Whatsapp) através do e-mail sitiohistorico.fsj@gmail.com. Em decorrência da pandemia de COVID-19, são aceitos grupos até 10 pessoas.